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As exposições caninas tornaram-se um evento de muito prestígio na Inglaterra em fins do século XIX. O envolvimento da Rainha Vitória, de seus parentes e de muitos nobres conferiu ao esporte um status superior. O decoro e a cuidadosa regulamentação observados nos encontros organizados pelo The Kennel Club garantiam grande respeitabilidade ao esporte.Se possuir um cão de raça já emprestava ao indivíduo uma imagem de elite, participar desse esporte então correspondia a se posicionar no nível mais alto de uma classe superior. Grande parte da atração exercida pelo hobby junto à classe média urbana vinha justamente da aura aristocrata que envolvia a competição. Ter um cão competindo em pista era parte do projeto de ascensão social dessas pessoas.
A situação privilegiada das exposições nessa época em nada lembrava as suas origens obscuras. Muito antes de Mr. Paper organizar o primeiro evento do tipo em 1859, a idéia já circulava em alguns ambientes. Para o The Kennel Club, sugestões nesse sentido já haviam sido feitas várias vezes antes por criadores de Fox Hounds e Greyhounds, raças então selecionadas pela aristocracia para a caça à raposa e a perseguição à lebre respectivamente. A iniciativa de Mr. Paper não significou pouca coisa porém, pois pelo menos três tentativas anteriores de realizar exposições caninas nos moldes das famosas feiras de gado haviam fracassado.
A versão oficial da história dos dog shows é muito lisonjeira e tem servido para conferir uma imagem refinada ao passatempo. Entretanto, uma outra história bem menos elegante está por trás desse esporte.
Exposições caninas já eram bem comuns em Londres na década de 1840. Elas eram geralmente organizadas em bares onde também se promoviam competições de rat-killing. Não havia elaboradas divisões de classe nem juízes para avaliar os cães. Cada um dos expositores era também espectador e árbitro e os vencedores eram apontados depois de uma barulhenta discussão.
De qualquer modo, a exposição organizada por Mr. Pape em 1859 é tida como marco inicial do esporte. O sucesso do encontro animou-o a montar um segundo evento em Birmingham alguns meses depois. A cidade logo tornou-se um centro para a cinofilia de então. Competições passaram a ser organizadas regularmente ali para uma audiência crescente.
O primeiro grande dog show, entretanto, aconteceu em março de 1863 em Chelsea: mais de mil cães foram inscritos. Em 1865, a febre em torno do novo hobby era tão grande que um grupo de cidadãos de Birmingham abriu uma empresa e construiu um espaço exclusivo para as provas de beleza canina.
O notável crescimento das exposições acontecia porém de forma um tanto desordenada. Havia problemas de estrutura e acomodação para os cães. Faltava água e espaço para os animais, que eram colocados em jaulas minúsculas ou presos a correntes bem curtas. As condições sanitárias eram precárias, facilitando a transmissão de doenças infecciosas. O transporte dos bichos também preocupava. A morte por frio ou fome nas estradas de ferro não era incomum.
A avaliação dos cães ocorria de forma bastante questionável. Os árbitros tinham de julgar um número tão grande de animais que mal conseguiam avaliar os concorrentes. A situação facilitava a vida dos que escondiam as faltas de seus cães por meio de maquilagem irregular. Fraudes na identificação dos animais também eram muito comuns. Cães eram inscritos nas classes erradas de modo a evitar o embate com concorrentes mais qualificados em categorias mais concorridas. A própria conduta dos juízes eram criticada com freqüência. Muitos juízes eram acusados de corrupção e favorecimento.
Toda essa situação ameaçava a reputação e o progresso do esporte. Um grupo de respeitáveis senhores decidiu então tomar as rédeas do empreendimento. Liderados por Sewallis E. Shirley, um parlamentar e fazendeiro milionário, esses indivíduos fundaram o The Kennel Club em 1874 com o propósito de regulamentar e refinar as exposições caninas em toda Inglaterra.
O perfil de seus associados apontava claramente para uma elitização do hobby. A associação era limitada a cem homens da aristocracia, da nobreza ou da realeza. Tal medida justificava-se refletia a crença de que as mazelas do esporte eram causadas pela ação de homens de reputação duvidosa: aquele mesmo tipo de gente que participava dos primeiros encontros caninos nos bares londrinos. Eles eram regularmente acusados de serem meros comerciantes de cachorros que manipulavam os registros genealógicos e os resultados dos shows para promover a venda de cães de sua criação.
O The Kennel Club começou então sua reforma estabelecendo regras e mecanismos rigorosos para identificação e registros dos caninos de raça pura. Apenas animais registrados no Livro de Origens da entidade poderiam participar do respeitável circuito de exposições organizado sob seus auspícios. A seleção dos cães anotados naquele volume foi rigorosa. Exemplares com história obscura foram desconsiderados, limitando a competição àqueles cães criados pela elite da cinofilia de então.
A resistência inicial à nova organização foi tão notável quanto passageira. Nem os corretores de cães nem grupos rivais como o de Birmingham, que reagiu furiosamente contra o que consideravam um golpe, conseguiram sustentar sua oposição por muito tempo. A maioria dos fãs colocou-se ao lado da nova entidade, preferindo a dignidade, a disciplina e o controle de qualidade ao invés do vale tudo das primeiras décadas da cinofilia moderna.
Por volta de 1892, o The Kennel Club havia consolidade sua posição dominante. "Sob sua direção, as exposições caninas deixaram para trás suas origens vulgares, tornando-se um respeitável e bem regulado passatempo, um reflexo de uma ordem social cuidadosamente calibrada" (RITVO, 1987: p. 104).
Ilustração:
An early canine meeting. De R. Marshall, 1855.
Referência:
RITVO, Harriet. The Animal State: The English and Other Creatures in the Victorian Age. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1987
